Ninguém
aguentava mais aquela reforma. Ter que se deslocar para o banco da cidade vizinha
era um grande transtorno. Isso já durava meses. Aliás, das coisas grandes, só eram
os problemas que eles conheciam. Mas, veja bem, era mais um. “O transtorno
passa, mas é a obra que fica”, sempre justificavam os responsáveis pela
mudança.
Mas, no início
daquela que era a mais impiedosa das semanas do verão escaldante, o novo banco
abriu as portas: estava, enfim, pronto para ficar. Como planejado, era lá que
todos corriam para se refrescar. “Que bom juntar o útil ao agradável!”. Nada
melhor que pagar as contas, acordar outras para o empréstimo do novo negócio da
venda ou resolver as pendências financeiras em local amplo e climatizado.
Pronto para aglomerar as pessoas – ordenadas. Para isso, melhores indicações,
em cores vivas, de por quais rotas seguir.
Não demorou,
coisa de um bocado de horas, para reconhecerem: não era tão novo assim. As
queixas eram as mesmas e as pendências foram transferidas para o mês que vem.
Logo a inquietação da espera prolongada esquentava os ânimos, no espaço
climatizado. Entre os resmungos e evasivas sobre o tempo, o garotinho tinha
encontrado um passatempo, afastando-se um pouco-tanto do lado de seu pai, que
permanecia enfileirado. Este, com o olhar de zelo, mas permissivo ao prazer das
aventuras, acompanhou o percurso do pequeno. O menino tinha achado um espaço,
até bem grande pelo que já havia visto, com vários pássaros, coloridos,
cantantes e muitos. E eram seus – “ora, eu vi primeiro”. O garoto perdeu a
conta, atrapalhou-se na altura do trigésimo. Havia um simulacro de habitat
natural, com galhos, pedras, casinhas, água, alimento... separados do resto do
banco por um vidro largo, como daqueles aquários gigantes, que exibem a vida
marinha desconhecida por boas quantias. E, nesse espaço do garotinho, tão alheio
aos bancos habituais, o amarelinho de número 30 passou a ser o quinto, na
recontagem. “Também, não ficam quietos”, resmungou, dando sentido às broncas da
tia do colégio. Mas o que importa a conta? Quantos? Esquecendo-se de
contabilizá-los, o garotinho se entregou aos pulos, fascinava-se com aquele
cantinho em que azuis, amarelos e brancos cantavam no ar. E isso contaminava o
pai orgulhoso, por ainda conseguir convidar, ali, seu olhar menino que ainda
existia nele.
A trilha
sonora da cena, no entanto, começou a desafinar. “Só podia ser coisa de criança”,
uma adolescente comentou, zombeteira. A senhora que a acompanhava replicou: “já
passa, logo vira um hominho”. Mais pessoas começavam a perceber o menino que,
aos poucos, conciliava o seu com um ou outro olhar de desaprovação. Ignorou, no
começo. Mas a cada olhadela, o menino timidizava. O pai despertou, com a
aproximação dele:
- Que foi, meu pequeno?
- Não sou pequeno. Já sou gente
grande. Um homem – sentenciou, já envelhecido.
- Eita, vamos, é minha vez. –
descobriu o pai.
- Finalmente, a fila começou a
andar! – alguém vibrou.

2 comentários:
Semana causticante msm... nem sei dizer como foi bom te ver escrevendo. Foi algo como banho frio e vestidinho de algodão em dia de calor tórrido. Parabéns, Lan. Não pára (gosto do acento...) por aí. Beijo.
Bom texto. Gosto dessa forma indireta de tratar as coisas. E o tema me fascina.
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